20.11.04

Eu, Goldmundo - páginas de um diário a fazer

I.

Gosto tanto da minha Ribeira. E só ontem percebi porquê. Depois da "doença" de Setembro e Outubro, recomecei devagarinho a trabalhar, a voltar à vida, a olhar à volta. Fui a uma médica com quem me entendi bem que me deu alguma medicação. E que me sugeriu uma psicoterapia. Há anos e anos que penso nisso. Nunca tive dinheiro que chegasse, e continuo a não ter. Mas desta vez resolvi confiar. Ontem tive a segunda sessão, a primeira depois da primeira que é mais um "olá" um bocadinho demorado. É estranho falar. Falar, falar de mim a outra pessoa nunca foi coisa fácil. Acho sempre que não é um assunto de interesse. Se a conheço mal, não confio o suficiente. Se a conheço bem e gosto dela, prefiro ouvi-la. Se acho que ela gosta de mim, prefiro fechar os olhos e deixar-me embalar. Mas não houve dia nem noite, em tantos anos, em que não sentisse uma imensa necessidade de falar até ao fim das coisas todas. "Até que a voz me doa", como diz o fado.

Aqui a Ribeira foi o primeiro sítio onde falei muito, e o primeiro sítio onde encontrei respostas tão diferentes sempre e sempre respostas que me iam fazendo falar mais. E depois, claro, além das coisas que digo há as coisas que vou pensando ou que vou dizendo a mim mesmo a partir das coisas daqui.

Gosto tanto da minha Ribeira, e ontem na tal sessão de psicoterapia falou-se da Casa onde nasci. Acho que nunca aqui falei dela explicitamente. Vivi nela até aos meus vinte e seis anos, e sair foi a expulsão do Paraíso. A Casa foi deitada abaixo por fora (meu Deus, está lá um prédio tão feio) e a Casa de dentro veio abaixo também. E só agora ao envelhecer descubro que é bom viver em cidades construídas sobre ruínas. E a Ribeira transformou-se, devagarinho, na minha Casa simbólica. Nunca mais precisarei de paredes de pedra, de telhados em arco, da minha cadeira no cimo da árvore grande. Gosto da Ribeira porque precisava de voltar a Casa só para finalmente conseguir sair dela.

II.

O que me aconteceu de mais importante nestes dias foi encontrar Deus. Quero falar disso com mais vagar, normalmente só quando escrevo à noite é que consigo encontrar as palavras certas. Hesitei se devia falar disso aqui, já percebi que muitas pessoas se sentem incomodadas. Mas no meu primeiro post (há tanto tempo) disse que isto ia ser a história verdadeira. E não há nada mais verdadeiro que uma paixão, mesmo quando é uma paixão não correspondida, não é? Por isso quero falar, sim, e ouvir se alguém quiser dizer-me alguma coisa.

Quando digo "encontrar Deus" não quero dizer "perceber que existe uma força dentro de nós bla bla". Isso eu sempre soube (depois explico melhor). Quero dizer encontrar uma pessoa que está viva, como eu estou e tu estás, que é apátrida (estou a brincar, mas nunca tinha pensado nisso) não tem bilhete de identidade nem cartão de eleitor nem segurança social nem televisão em casa, mas está viva em carne e sangue e osso e coração. Quero dizer encontrar uma coisa que não faz sentido absolutamente nenhum, que não tem lógica nem explicação científica e que é tão inesperada como a gravidez de uma virgem. Mas está aí à minha frente, à minha volta, perto de mim, ou tão perto quanto eu queira que esteja. Jesus de Nazaré era o nome que lhe davam os que primeiro o conheceram.

(Deixa-me dizer desde já que não passei a ter mais simpatia pelo senhor George Bush por causa disso... :P)

E agora vai ser um sarilho. Por imensas razões. Uma delas é que gostava imenso de ser compreendido e não posso explicar o inexplicável. Nem me apetece criar um blog sobre Teologia. Mas o engraçado é que as pessoas quase todas andam a falar, quando falam destes assuntos, de coisas que não têm nada a ver com o que na realidade se passa. Nem em política internacional se consegue ter uma confusão tão grande...

Mas a maior razão para o sarilho é a de que eu sou de facto um tipo que não presta. E isto não é a auto-estima na "reserva" nem é um pedido de "ora, gosto muito de ti". Eu sei que gostam muito de mim e eu também gosto muito de mim (nem sempre gostei, mas agora gosto). Gosto tanto de mim que queria o melhor para mim, e o melhor para mim é aquilo a que os católicos chamam o "caminho da salvação". Uma vida boa, que é muito diferente da boa vida. E que longe eu ando disso. Só me lembro do Filipinho, sabes, o amigo da Mafaldinha, "até as minhas fraquezas são mais fortes do que eu".

Tenho Deus no pensamento como em tempos tive as raparigas por quem me ia apaixonando. É tão bom descobrir que o Amor não é uma coisa mas sim uma pessoa.

"Ainda que eu fale as línguas dos homens e as dos anjos, se não tiver amor dentro de mim serei apenas como um bronze que ressoa, um címbalo que retine". S. Paulo, e tem toda a razão.