28.10.04

Monopólio



Nunca gostei muito deste jogo, mesmo quando era criança aborrecia-me em pouco tempo. Gostei do Risco, conquistar o mundo. Mas acumular casinhas e notinhas sempre me pareceu estranho. É muito isso aquilo que me afasta, por dentro, da vida que é suposto levar por fora. Saiu o sete, um dois, três... compro. Aqui está. Duas casas, por favor. Volte à Partida. Azar. Perdeu a licença, pague uma multa. Rua do Ouro. Prisão. Salvo-conduto. Volte à partida. Sete.

Estive a ler o "Necromante", o romance de ficção científica que, há vinte anos, inventou a palavra "ciberespaço", deu origem à estética do Matrix e a outras coisas a que nos habituámos já. A certa altura há uma espécis de não-lugar. Não se percebe bem se é um sonho, uma ilusão cibernética, uma realidade virtual. Uma praia, um céu cinzento, o mar. O tempo não passa. É talvez ums prisão. Há uma rapariga que é uma antiga namorada morta e que talvez seja um fantasma, ou uma armadilha, ou um espião. Mas ela está ali ao lado, adormecida, com os seus cabelos negros e o seu rosto infantil. E a seguir as ondas, as ondas brancas, a espuma. Talvez haja um pássaro ao longe, talvez as luzes de uma cidade morta.

Era ali que eu queria estar agora, agora num não-lugar, num não-tempo. É talvez, obscuramente, o desejo de morrer. Mas gosto mais disso do que dos quadradinhos do monopólio. Sete. Volte atrás. Partida. Prisão.