
Que um anjo entrasse, não foi (entendes)
o que a fez estremecer. Não mais do que outros,
que quando um raio de sol — ou quando à noite a lua —
o seu quarto invadem, se não sobressaltam,
ela não era feita para se perturbar
com o aspecto que um anjo à entrada revestisse;
e mal pressentia que tal forma
era incómoda aos anjos.
(oh, se soubéssemos
como ela era pura. A lagarta que um dia ela viu,
repousada, na floresta, não foi tão penetrada
pelo seu olhar que em si se engendrou o unicórnio,
o animal feito de luz, o animal puro?)
Que um anjo entrasse, não, mas que para si tão perto
se inclinasse o rosto adolescente,
e que assim o seu olhar, e aquele
que ela levantou para ele, concordassem,
como se de repente tudo fosse vazio,
e o que vêem, buscam, levam em si milhões de homens
concentrado nela: ela somente e ele,
a visão e o visto, o olhar e a alegria do olhar
em nenhum outro lugar senão aqui: vê!
isso faz medo. E ambos estremeceram.
Então o anjo cantou a sua melodia.
[pintura: a Anunciação, de Dante Gabriel Rossetti.
Poema: Rainer Maria Rilke, poemas a Maria (tradução ad-hoc)]

3 Comments:
O poema é lindo.....
Vim de passagem, porque gosto do que escreves no eupadre.
Um abraço irmão em Cristo.
Pe. João Luis
gostei do teu poema. Cheguei aqui depois de ver os teus comentários no "confessionário". Continua a deliciar-nos com os teus poemas.
www.padre-inquieto.blogspot.com
Também cheguei aqui pela correção no confessionário (obrigado!) e gostei muito do blog.
E nós? Como é que ficariamos se de repente um anjo nos entrasse pelo quarto adentro e nos pedisse a maior mas também a mais difícil missão do mundo?
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