11.3.08

Fomos...

"We were the last romantics - chose for theme
Traditional sanctity and loveliness;
Whatever's written in what poets name
The book of the people; whatever most can bless
The mind of a man or elevate a rhyme;
But all is changed, that high horse riderless,
Though mounted in that saddle Homer rode
Where the swan drifts upon a darkening flood."

(traduzido por Miguel Serras Pereira, que não gosta da palavra "sanctity":

Fomos os últimos românticos - o nosso tema
a tradição da amenidade e da virtude;
Tudo o que está escrito nesse livro a que o poeta
Chamou livro do povo; tudo o que abençoava
O espírito dos homens ou celebrava um verso;
Mas tudo está mudado; hoje eis sem cavaleiro
A soberba montada que Homero cavalgou
Onde singrava o cisne na escuridão das águas.")

[os versos são de Yeats; a tradução de MSP está na edição portuguesa de "No castelo do Barba Azul - Algumas notas para a definição da cultura" de George Steiner, publicado pela Relógio D'Água. A fotografia tem a identificação do autor.]

Encontrei estes versos que estavam num livro que encontrei numa feira de "livros manuseados". O livro é muito bom. Não o recomendo. Talvez seja melhor pensar que Pégaso pode voltar a ser montado, que o cisne aguarda para além do dia. Sim, we were the last. Abençoar é hoje uma palavra escusada; Homer é apenas um dos Simpsons; singrar é coisa para fazer na vida, e a vida de hoje nada quer com a escuridão.

Não, não o recomendo. Não leiam sequer os versos, não venham sequer aqui à minha ribeira vazia. Tantas coisas novas para vos divertir, novinhas em folha. Deixem quietas as folhas dos antigos livros, as folhas do loureiro pagão. Deixem-nos a nós. Fomos; e nem sabíamos o que éramos, julgávamos que era só a música (e talvez fosse). Julgávamos que era só esta coisa cá dentro. Portas vermelhas fechadas por dentro, fogo inútil na escuridão?

Dark tales, e não há como sair daqui. Eu e alguns outros estamos no mundo estranhamente rarefeitos, altivamente rarefeitos. A nossa história é a do horror à vossa blasfema densidade, à vossa incomensurável insuficiência. Rir é coisa que deve ser deixada aos deuses e ao vento tépido da manhã. Talvez sejamos nós a montada sem cavaleiro, talvez o canto gótico do cisne. Ou, como diz o João Miguel Fernandes Jorge noutro livro que a feira me trouxe,

"Gatos a caminho do Paraíso".

7 Comments:

Anonymous Anonime said...

Se calhar o Miguel Serras Pereira acha que santidade não liga bem com amenidade (aliás,'loveliness' parece-me referir-se mais ao que é 'amável' do que ao que é 'ameno')... ou se calhar não gosta do conceito, como tantos nos tempos que correm! Virtude tem um som mais 'laico', não ofende as novas susceptibilidades... Mas nem por isso a santidade deixa de abarcar o que é ameno e o que o não é - a luz de um dia de Outono, o sol do deserto, a escuridão da madre Teresa de Calcutá... e não é por só se ouvir o gargalhar dos néscios que ela perde a sua principal característica - aquilo que nos liga à Eternidade (vai muito para além do tempo das cerejas...).

dissemos
:)

14/3/08 03:57  
Blogger Goldmundo said...

"Virtude" pode ser laico, mas pode ser, também, romano, e de laicos os romanos pouco tinham... deixemos o benefício da duvida.

Pois, a nossa ligação à eternidade (porquê a maiúscula?): "vem, noite antiquíssima..."

respondemos :)

15/3/08 00:26  
Blogger Akinogal said...

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15/3/08 11:30  
Anonymous anonime said...

Escrevo Eternidade com maiúscula pela mesma razão que escreveria 'E era uma vez O Homem que acendia os mortos, e nem aos anjos coube tarefa igual'(dead can dance)... porque acredito que foi Aquele a quem coube essa tarefa que disse: 'Antes de Abraão existir, Eu sou'...

... e é também por isso que acredito que nem hoje, nem nunca, abençoar é uma palavra escusada - Ele é a bênção!

"Vem, ó Noite Antiquíssima..." :)

15/3/08 16:11  
Anonymous Julianaaz said...

Andas mesmo a merecer um bolo de bolacha :D

16/3/08 03:53  
Blogger Lord of Erewhon said...

«Fomos os últimos românticos - o nosso tema
a tradição da amenidade e da virtude;» - numa palavra: Gótico.

Abraço.

22/3/08 16:37  
Blogger Lord of Erewhon said...

P. S. Importante entender que cada época tolera melhor certas versões...

«We were the last romantics - chose for theme
Traditional sanctity and loveliness;» - numa palavra: Romantismo.

22/3/08 16:39  

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