Lídia
I.
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
que a vida passa, e nao estamos de maos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos)
(sossegadamente sim, que pena. mas Lídia foi sempre junto de quem me sentei, me quis sentar. deve ser daí que nasceste, ribeira-de-mim, aprendamos dizia a vozinha cá dentro. o Príncipezinho não teve nunca uma camisa ou uma capa de amarrotar. enlacemos as mãos: cuidado. fui sempre este ver o rio que passa, e tanto mais quanto mais perto as mãos me fitarem.)
I.
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
que a vida passa, e nao estamos de maos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos)
(sossegadamente sim, que pena. mas Lídia foi sempre junto de quem me sentei, me quis sentar. deve ser daí que nasceste, ribeira-de-mim, aprendamos dizia a vozinha cá dentro. o Príncipezinho não teve nunca uma camisa ou uma capa de amarrotar. enlacemos as mãos: cuidado. fui sempre este ver o rio que passa, e tanto mais quanto mais perto as mãos me fitarem.)
II.
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
passa e nao fica, nada deixa e nunca regressa,
vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
(tão pequeno o rio, sabes, e estava pensar que a vida passa e sinto a tua mão como se fosse uma ausência já perdoas-me?)
III.
Desenlacemos as mãos, porque nao vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
e sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixoes que levantam a voz,
nem invejas que dao movimento demais aos olhos,
nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
e sempre iria ter ao mar.
nem invejas que dao movimento demais aos olhos,
nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
e sempre iria ter ao mar.
(não queria passar, sabes? mas sim, desenlacemos as mãos, não vale a pena cansas-te e eu começo a chorar. eu não queria ser igual ao rio, vamos para casa agora. eu nunca hei-de ser o grito inteiro)
IV.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
ouvindo correr o rio e vendo-o.
(se quiséssemos, se eu soubesse correr como o rio tão alto. se me deixasses afogar mas não te direi a palavra certa. se quisesses que eu fosse a tempestade maior. mais vale, sim, mais vale ficar. ouvimo-lo, não é? podíamos se quiséssemos mas eu não posso querer, não posso. se fosses Lìdia o abismo se fosses a pedra a sangrar)
V.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
no colo, e que o seu perfume suavize o momento -
este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
pagãos inocentes da decadencia.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as maos, nem nos beijamos
nem fomos mais do que crianças.
(lembrar-te-ás, diz-me. diz-me isso só e eu deixo-te sossegada as flores suaves. é tão triste ser criança e assim olha como eles dormem tão puros. não nos beijamos, Lídia, nem fomos mais e diz-me lembrar-te-ás do gesto e da incerteza do gesto e de quando disseste eu gosto do rio, vem.
Há um mistério tão grande em pés descalços)
VI.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
pagã triste e com flores no regaço.
eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
pagã triste e com flores no regaço.
(e se antes do que eu. porque eu vou ficar, Lidia. sou a ribeira onde quase enlaçamos as mãos. e já não vou ter com o mar. porque então teria que gritar, e teria que saber o abismo que me não deste. vai., Lídia vai devagarinho. enlacemos as mãos)
[versos de Ricardo Reis]
6 Comments:
Obrigada por teres postado este poema tão bem ilustrado também....Sempre adorei a faceta Ricardo Reis. Boa semana para ti e um beijinho,
Silêncio…
Descoberto Arsenal Secreto na Foz do Rio Douro…
http://sal-portugal.blogspot.com/
O Timoneiro do Inferno…
http://sal-portugal.blogspot.com/2005/12/o-timoneiro-do-inferno.html
Sal de Portugal
Lídia... VEM CÁ! AJOELHA! :)
Klatuu, fazemos assim: não profanas os meus túmulos e eu não mando benzer os teus... pode ser ? :)
Que lindo seria o Amor assim, parado o tempo, com todo o tempo do mundo pela frente e sem medo de deixar ir o outro, dar-lhe liberdade e amá-lo ainda assim...
Clara das mãos esguias
É um bom acordo!:)
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