20.1.06

White and Greens in Blue: Requiem



No princípio criou deus todas as coisas, e deu-lhes
a forma pura de um requiem. No princípio criou a noite,
e o abismo que é a noite da noite, e o grito, que é o abismo
do abismo. Sim, as primeiras coisas criadas. Fez depois,
com imenso e vagaroso amor, os anjos cegos; e ordenou-lhes
então que dançassem. E os anjos obedeceram, e da sua dança
sobre a noite e o abismo, da sua dança sobre o grito,
saiu o árctico mar, e a constelação da Virgem,
sairam as vinte e duas letras que contém o mistério,
o voo breve da garça real e a árvore decepada de inverno
e a visão da ferida no teu braço: vertigem de inatingir.
Sim, disse deus, começo a compreender mas não basta.
Se eu pudesse morrer. Então avançou o mais forte dos
anjos, aquele que primeiro atravessara
o abismo: e as estrelas apagaram-se à passagem das asas.
E o anjo reclamou a luz, silêncio gelado das hostes.

Quando deus não permitiu ao anjo ver o que a sua dança
nos fizera, ele bateu irado com a espada na rocha
que sustenta o trono, e abriu-se o fundo da terra.

Então disse deus a partir de agora a dança cega
caberá a esses que porei aí onde a tua espada fendeu
a rocha: e por-lhes-ei uma marca na fronte, o negro
que é igual ao abismo que atravessaste e à noite,
a primeira das coisas em que me fiz mundo. E tal como
foi imenso o amor vagaroso que te tive, assim
será imenso o meu remorso ao saber das coisas
que a sua dança fará. E isso mesmo me ensinará
a dançar.

[Pintura: White and Greens in Blue, de Mark Rothko.

3 Comments:

Blogger Vítor Mácula said...

Caro Goldmundo.

Aleg(o)ria: Rothko confirma Turner na diversidade e na história.

Abraço.

23/1/06 13:25  
Blogger Goldmundo said...

Ora... e eu a penasr que ias ficar zangado :)

23/1/06 13:37  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Goldmundo.

Ora, ora - nos dois sentidos ;)

Fantástica essa crase penar/pensar (providência?) eh eh

E já que estamos aqui só os dois (já pareço o Baptista Bastos:), aproveito para dizer-te que tenho estado a ler Isabel da Trindade, que remete muito para aquela questão da verdade mística. É muito certeira, a moça. É daquelas coisas que está no "hardcore" cristão, tais como Angela de Foligno, João da Cruz, Meste Eckhart, etc, enfim, os místicos... Aquilo que um estômago irreligioso é totalmente incapaz de digerir, a não ser através duma anulação, psicanalítica ou outra, do significado próprio dos textos místicos.

É uma leitura que me põe mais em estado de oração do que de reflexão, que vem "depois" mas muito aquém.

Abraço.

24/1/06 13:02  

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