30.4.06

Águas de Abril, rosas de Maio (iii)

29.4.06

Águas de abril, rosas de maio (ii)



Um sonho.

Estou a dormir, tocam à campainha, desço à rua. É o Engels, com a sua barba inconfundível, o seu fato aprumado. O Engels veio ver-me porque está muito contente. Proximamente vai casar com o Marilyn Manson. Haverá uma festa e eu, claro, não podia deixar de ser convidado. Vejo ao fundo da rua o Marilyn Manson, que não conheço pessoalmente, e penso que tenho de o ir cumprimentar, talvez quando deixar de falar com aquelas pessoas que devem ser amigos deles. Estou contente pelo Engels, embora não goste muito de festas de casamento.

A rua está cheia de pessoas que eu conheço, daqui e dali. Como acontece tantas vezes nos sonhos, como acontece no fim da peça de teatro quando os actores todos estão ao mesmo tempo em palco, os vivos e os mortos, os bons e os maus. Tantas pessoas, tantas partes de mim.

As pessoas todas falam. Falam do Engels, do casamento, do escândalo. Todas têm qualquer coisa a dizer. Umas não querem que dois homens se casem. Outras não suportam que o chefe da Revolução case com aquele maltrapilho duvidoso. Outras não admitem que o seu ídolo case com aquele velhote gorducho. Todas falam e todas olham para mim como se precisassem de que concordasse com elas, como se me estivessem a testar (a detestar?). O Engels continua muito contente, como se não soubesse que as pessoas estavam ali à volta. E a M. está ao meu lado vestida do seu negro de sempre. "Vês?", diz ela. "Tão simples. Gostam um do outro. E as pessoas dizem coisas estranhas e eles vão casar na mesma. Também estou contente, sabes?". E eu sabia, sim.

Sempre me aconteceu ter sonhos curiosos. Mas este explica-se por si, não é verdade? Águas de Abril, rosas de Maio. Depois volto a falar um bocadinho de tudo isto.

27.4.06

Dolls, ou a corda vermelha




Pelos mundos de um Japão feito das cores assombrosas uma mulher e um homem caminham em silêncio. Parecem uma alma de luto, parecem um corpo a sangrar. Une-lhes os pés uma corda vermelha que se mistura com as folhas de Outono, une-lhes a alma uma história de magoar que se mistura com a história que somos. Dolls. Um filme de Takeshi Kitano. Eles iam casar sim, ele deixa-a por uma menina rica, ela deixa-se cair até ser o abismo maior, o espelho maior. Louca, dizem todos. Pouca, talvez. Isso ficamos nós a saber nos primeiros cinco minutos. E depois vêmo-los, tão devagar. Tão longe. Ele volta mas é tarde demais para tudo o que não seja estar junto, a corda vermelha para que ela se não perca quando tudo já se perdeu. E uma corda os ligará, agora que é tarde para as palavras e os gestos. Agora a corda vermelha é a medida e o limite dos passos, das mãos, do olhar, das flores. Agora a corda é o fim, e o fim somos nós, como os nós fortes da corda vermelha. E do resto não vou contar: sabemos tudo desde antes de a história começar, porque as coisas todas são em nós corda vermelha a acordar.

E assim somos nós, mesmo quando nos cremos sozinhos, mesmo quando não damos pelas cores do caminho. Mesmo quando as cores não nos dão nada também, senão o vermelho das cordas. Assim somos nós, arrastando connosco coisas que somos e que no princípio da história se deixaram ficar como se não tivessem para onde ir, como se fôssemos nós os nós que ao mundo triste as amarram. Assim somos nós. Companheiros de fantasmas cegos.

Musgo, posso pôr aqui as tuas palavras?

" Isto é tudo como lutar contra um fantasma. Nunca sei onde está porque não é visível ou palpável. Nunca sei se vem em alturas de sexta-feira treze ou nos festivais celtas.E sei que está tudo aqui, dentro da minha cabeça. E sei que é a minha cabeça a produzi-lo e a materializar o fantasma, a concretizá-lo nas minhas acções e afazeres, não deixando esquecer-me aquilo que fui e sou. Querendo que eu complete a frase anterior com “e serei”. Mas não, eu não serei quem este fantasma me obriga a ser. É estranha a forma como o drama pessoal funciona, como a tragédia pessoal funciona. Tudo aqui, dentro da minha cabeça, sem resolução à vista. Como se bastasse mover um peão para fazer xeque-mate ao que está na minha cabeça e a minha cabeça bloqueasse esse peão. É uma frustração intensa, a materialidade de um pesadelo em que a acção está presa na irrealidade do sonho. "

(Musgo, aqui , no dia 25 de Abril que devia ser dia de outra coisa e daí talvez já não seja)

Que posso dizer? A Gotika, no último post, traz-nos a história dos Amigos de Job-o-da-Bíblia. Vieram quando souberam da sua dor e sentaram-se em silêncio durante sete dias, porque a dor era muito grande...

E sim, eu não diria sete dias mas setenta vezes sete, e talvez mesmo assim não chegue. Talvez seja isto o que faz com que alguns de nós insistam na ideia estranha de se sentir humanos: "podia estar eu, na ponta da tua corda vermelha".

22.4.06


águas de abril
rosas de maio (I)



Vejo o mundo como se o mundo se tivesse partido antes de eu acordar, ou como se tivesse partido eu para um lugar qualquer que já não sei onde anda. Não sei se as coisas deviam ser inteiras, deviam ser diferentes. Não sei se as coisas podiam ser, da mesma forma que podia eu ter sido. Não sei porque é que sou sempre as águas de abril à espera da rosa de maio. E não me venhas dizer que chegará um dia o tempo das flores e da verdade das flores. Eu vejo o esplendor das rosas no meu espelho partido, no meu pedaço de vidro enferrujado das águas. Mas o meu espelho não se faz passagem de Alice nenhuma, e por isso hei-de estar sempre do lado de cá de mim.

Mas sabes, ando cansado das rosas de maio, tão cansado. Que acontece se me ferir no meu pedaço de vidro. Que acontece a abril se maio for uma rosa a sangrar.

Partir. Sim, é isso. Partir é a única maneira para sempre.

20.4.06

Se escrevesse agora alguma coisa não seria eu a escrever, mas uma coisa velada em mim. Tão grande a tentação de falar, de dizer qualquer coisa para que as coisas todas se calem. Se escrevesse agora diria uma mentira qualquer, ou talvez contasse uma história para que ninguém me prestasse atenção. Era uma vez.

Acordo de manhã e invoco um espírito cego que durante o dia faça as vezes de mim. Não sei se alguém dá por ela. Ao fim da tarde estou cansado.

Durmo.

Aguardo, como Abril aguarda as rosas de Maio.

10.4.06

Fui ver um filme, "Ninguém sabe".

Quatro irmãos em Tokio (doze anos o mais velho), uma mãe que desaparece (talvez tenha um namorado, talvez tenha morrido simplesmente). Quatro irmãos e um abandono. Quatro vidas e uma morte. Não, não é possível deixar uma criança sozinha (o mais terrível é elas náo darem sinais de saber como é terrível).

A definição de tragédia para os gregos: sabemos o que vai acontecer, e só podemos ver o que acontece.

O amor quando não há ninguém é isso mesmo que ninguém sabe.

9.4.06



... mixing
memory and desire.

T. S. Eliot

De vez em quando, disse uma noite a Catarina, sento-me na mesa branca com uma folha de papel e redesenho-me. Quando era pequena usava lápis e uma borracha e fazia traços e apagava as coisas de que não gostava, as cores. Agora sou cada vez mais o cenário puro, desenhei-me até saber o traço esguio. O mundo é assim. E é por isso que tens medo. Nunca serias capaz de apagar. Cortar. Escolher. Esperas que o mundo se desenhe em ti. E depois não acontece nada.

(o meu desenho seria assustador, pensei)

Tantos anos passaram (tantos?) e não sei se alguma coisa aconteceu, não sei a que mesa ando sentado. Sim, um lápis na mão como se fosse uma coisa a acontecer. Talvez seja tudo uma folha de papel, talvez esteja ela já rasgada de tanto o mundo a ter apagado. Calar é às vezes uma borracha suja.

Mas sabes, não vou fazer o desenho que me pediste, não vou. Há coisas de que me lembro, e têm sempre a forma do gelo. Há coisas que quero, e são sempre iguais a uma história inventada. E por isso se queres desenhos de flores e de casas e de pessoas a andar vai procurar os desenhos que fiz no colégio, os desenhos velhos. Nessa altura não sabia falar.

Não sou como tu querias. Não nascem camélias brancas no mar de gelo que me embalou. Não há palavras na face pintada a tinta.

Assustador? Eu ainda não te disse as coisas que vão mesmo assustar. Mas sabes, talvez devesses ter fechado os olhos. No meu mundo, ver é uma coisa inesquecível. E agora é capaz de ser tarde. Tarde para me guardar na folha branca. Tarde para o papel que me quiseste dar.

Post-guiça

A Gotika e a Eu mesma sem escrever, como duas casas ao lado com as janelas fechadas. O Jardim de Luz e a Aquilaria em silêncio. April is the cruellest month. Por aqui, como de costume, penso em imensas coisas quando o computador não está por perto, mas acabo por ler os outros e fazer pequenos comentários aqui ou ali como se andasse à espera de um novo sinal de partida. Às vezes as ribeiras são preguiçosas.

No lugar dos túneis ("links", dizem eles), passa a estar também o Vidas precárias. Porque este é o bom combate. E passa a estar também De dentro do exterior , porque é isso mesmo.

E pronto. Transformei a pre-guiça em post-guiça. Já não é mau.

8.4.06

Irmã noite. Quem a teme nunca saberá de nós, os vivos.

7.4.06

Sem filtro

O mal de ser viciado em café e tabaco é que tenho que ir comprar tabaco e tomar café e acabo por ver ou ouvir a televisão. Fiquei a saber que o governo quer proibir o fumo em discotecas, e que a Associação de não-sei-quê do Tabagismo "congratulou" não-sei-quem.

Muito bem. Eu queria: (1) as contas da Associação do Tabagismo, todas. Quem paga aquilo? (2) os rendimentos e declaração de patrimónios e outros interesses dos fundadores e dos responsáveis. Como se faz com os deputados, e obviamente tudo aberto à investigação jornalística (não há jornalistas neste país, mas não podemos querer tudo de uma vez). Claro?

Ainda me lembro da tarde (governo cavaco, há tanto tempo...) em que fui visitar um amigo que tinha (por cunha) sido nomeado para uma direcção ou coisa assim do Ministério da Saúde, encarregado (por uns trezentos contos mensais que na altura davam para o tabaquito...) de "planear" a campanha anti-tabaco. Ficámos a tarde toda na má-língua (parece que ele não tinha nenhum trabalho urgente...) e fumámos um maço cada um.

Os dele eram sem filtro.

6.4.06

this corrosion



... I have nothing to say I ain't said before.

3.4.06

Destruir, diz ela (Détruire, dit-elle)

Sábado e Feira da Ladra. Marguerite Duras, um euro. Nunca tinha lido nada da Marguerite Duras. Suponho que já não se "vende". Comecei a ler enquanto comia, mesmo antes de ir para casa. Ainda não parei, o Orlando vai ter de esperar, o que me falta do Artaud vai ter de esperar. Détruire, dit-elle.

Um texto que parece uma sombra densa. O peso de cada gesto, de cada palavra, de cada silêncio. Dois homens e duas mulheres. Um hotel. Julho. Uma sala de jantar, um relvado junto a campos de ténis (o bater ritmado das bolas de ténis). A floresta ao fundo, como se fosse um lobo a aguardar. Todos os erros do mundo.

Max Thor (queria escrever um livro. mas em cada noite mudam as coisas que eu escreveria se escrevesse). Alissa (ele é professor, eu fui sua aluna. tenho idade para ser sua filha. casámos sim). Stein (Alissa sabe. mas que sabe ela?). Elisabeth Alione (a senhora Alione tem medo da floresta). Todos se conheceram ali, excepto Max e Alissa que são casados (conhecem-se? É Stein que a descreve, é Max que escuta). Stein vê Alissa que vê Max que vê Elisabeth. De vez em quando pensamos "um deles não é um personagem mas o escritor. vê tudo, sabe tudo (mas que sabe ele?)". De vez em quando não pensamos. As frases umas a seguir às outras têm a sua lógica (um diz uma coisa, o outro responde uma coisa que não é uma resposta), o todo é o som da loucura a chegar (ao fundo a floresta, como um lobo prestes a saltar. o bater ritmado das bolas de ténis).

Apercebemo-nos, com horror, da razão do horror. Eles estão todos a dizer a verdade. A verdade em estado bruto, como se fosse ferro extraído da mina. Dizem-na, mesmo quando não a sabem ("Alissa sabe. Mas que sabe ela?"). Stein e Max: Dois homens que são o mesmo homem. Alissa e Elisabeth: duas mulheres que são a mesma mulher ("somos tão parecidas, não acha?"). Quatro que são dois que são um, como nos livros assustadores da Ana Teresa Pereira. Um que não é coisa nenhuma. Nada. ("estou a caminho de ser um escritor", diz Max. "desde sempre a caminho, não?", diz Stein).

A verdade. Vou a meio do livro (pequeno, cento e vinte páginas com letra espaçada e frases curtas como punhais). Já é inevitável a destruição. Já é inevitável. ("é fascinante ver-vos viver", diz Alissa, "e terrível").

(o bater ritmado das bolas de ténis)

Primeira meditação sobre o dizer

É verdade que, como disse a gotika, a depressão é a raiva virada para dentro. Mas aprendi também que o medo, quando temos medo, é o que temos de mais precioso: impede o mundo de avançar ao nosso encontro. Protege-nos, como se fosse uma Mãe adorável. De modo que a solução não pode ser "vencer" o medo, como se "vence", na infância, a aversão à sopa. Não temos onde nos apoiar se o quisermos confrontar. Por detrás dele somos tudo o que há para ser, através dele ou contra ele nada fica que seja nosso. Por isso o medo é o senhor mais terrível.

Solução?

Eu tinha uma bicicleta verde e branca com rodinhas, a minha irmã tinha uma preta já do tamanho das pessoas grandes. Falava ela (e falava o meu pai) de ter eu crescido o suficiente para que as rodinhas fossem tiradas. Desaparafusaram-nas enquanto eu chorava. Subi. A bicicleta verde e branca estava tão assustada como eu. Não pude andar. Fiquei a ver a minha irmã a dar voltas pelo jardim, aparecia e desaparecia atrás da ameixoeira grande e dos tanques de pedra. Vinha até mim e ia-se embora. Eu sentava-me no selim pequeno e não fazia mais nada. E assim foi vários dias.

Até que perdi a cabeça com qualquer coisa que a minha irmã me disse e corri para ela para lhe bater. Na bicicleta verde e branca, sem rodinhas.